Fordlândia: as lições da incrível cidade esquecida da Ford na Amazônia

Fordlândia: 1927, ano de nascimento do sonho americano na selva brasileira
18 de janeiro de 202111min
Fordlandia
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Dos saudosistas donos de Corcel aos lobistas de Brasília, a essa altura todos já sabem do anúncio da montadora americana Ford que está fechando suas fábricas no Brasil. A centenária história da empresa no país tem capítulos para lá de conhecidos, como o lançamento de carros históricos como o Escort e o Ka. Mas uma das mais incríveis passagens da Ford no país acabou encoberta pela tempo: a Fordlândia, idílica cidade fundada em 1928 no meio da Floresta Amazônica

A história da empreitada foi contada em detalhes em 2009 pelo historiador americano Greg Grandin, no livro “Fordlândia — Ascensão e Queda da Cidade Esquecida de Henry Ford na Selva”. Na obra, Grandin mostra o que fez da Ford uma potência industrial no início do século 20. Henry Ford, então o homem mais rico do mundo, projetou a Fordlândia como ponto central de produção de látex para atender a demanda do mercado global, uma mostra das ambições de seu império. Depois, a empreitada foi à ruína por problemas operacionais e pela competição com produtores mais eficientes, como os asiáticos — uma sombria coincidência com os desafios enfrentados pela Ford quase um século depois.

A montadora americana, como se sabe, ficou parada no tempo — um tempo longínquo em que podia, no limite, controlar a plantação de seringueiras. Hoje, está em sexto lugar entre as maiores do Brasil, e foi uma das que mais perderam vendas com a pandemia — 39% no ano passado. Nos Estados Unidos, suspendeu a produção de carros de passeio. Por aqui, não conseguiu competir mesmo com os pesados subsídios concedidos à indústria automotiva — de 6,6 bilhões de reais em 2019. Neste contexto, a história da Fordlândia, de 90 anos atrás, é um símbolo das vantagens e desvantagens competitivas da montadora e do próprio Brasil.

A saga começou em 1927, quando o governo do Pará cedeu a Henry Ford um milhão de hectares para plantar seringueiras em plena floresta amazônica — uma propriedade do tamanho de um estado americano de porte médio, como o Tennessee. Havia se passado oito anos desde que a Ford, em 1919, instalara aqui suas bases – a primeira montadora estrangeira.

O contexto era um custo crescente de importação de látex para pneus da Ásia. Segundo Gradin, mais do que um projeto de negócio, era uma utopia de levar o sonho americano para um novo lugar sem vícios que Henry Ford enxergava na sociedade original, como guerras e álcool. “Ford queria produzir não apenas carros baratos, mas também um novo mundo”, afirma o autor.

“De um lado, estava o industrial que havia aperfeiçoado a linha de montagem e dividido o processo de fabricação em componentes cada vez mais simples. Do outro lado, estava a famosa bacia do Amazonas, espalhada sobre nove países e abrangendo um terço da América do Sul, um lugar selvagem e diversificado”, afirma o livro.

A Fordlândia era, afirmavam os jornais da época, uma nova e titânica luta entre a natureza e o homem moderno. O Washington Post afirmou que Ford estava levando “a magia do homem branco” para o mundo selvagem.

“Ele tinha mais de sessenta anos quando fundou a Fordlândia — e aquele assentamento tornou-se o clímax para toda uma vida de concepções ousadas a respeito da melhor maneira de organizar a sociedade”, afirma o autor. A vila de trabalhadores, a Fordlândia, tinha ruas pavimentadas e iluminadas, hidrantes vermelhos, água encanada e até hospital, piscinas, cinema, campos de golfe, e carros pelas ruas.

Nos fins de semana, os trabalhadores, boa parte deles brasileiros, participavam de bailes e concursos de poesia. As creches ofereciam leite de soja, porque Ford não tomava leite de vaca. O consumo de álcool era proibido, assim como na sociedade americana dos anos 20.

A aventura durou duas décadas e custou dezenas de milhões de dólares em dois endereços — a cidade foi mudada após uma praga devastar a primeira plantação, entrando para a história com dois nomes, Belterra e Fordlândia. O próprio Ford nunca fez o trajeto de 18 horas de barco ainda hoje necessário para chegar às ruínas da Fordlândia, descendo o Rio Tapajós após Santarém, no Pará. Com idade avançada, passou a ser cada vez mais pressionado pelos efeitos da Grande Depressão e pelos sindicatos até sofrer um derrame em 1938 — o empresário morreu em 1947, aos 83 anos. Getúlio Vargas, por sua vez, visitou a região e fez da Fordlândia um ponto de partida para um ambicioso projeto de desenvolvimento da região Norte.

Os desafios da Fordlândia foram tão grandes quanto a floresta tropical. A taxa de mortalidade por malária e febre amarela era alta. A violência era “pior que nas cidades mais famosas do Velho Oeste”. Greves eram constantes, assim como comida estragada. As queimadas eram as maiores já vistas na Amazônia, com um desperdício enorme de terra em plantações improdutivas.

“Em vez de uma cidade virtuosa brotando do verde da Amazônia, os comerciantes locais montaram bordéis, bares e cassinos cobertos de palha”, afirma Grandin.

Os americanos acabaram abandonando a Amazônia em 1945, sem levar nada. “Adeus, vamos voltar para Michigan”, afirma Grandin.

As seringueiras, superadas em custo por plantações em outros mercados, como Malásia, Vietnã ou Indonésia, foram substituídas por cacau e por gado zebu, um dos primeiros plantéis a ser testado na imensa região amazônica. A empreitada entrou para a história como um imenso fracasso e como um símbolo de arrogância.

“Ford, o homem que no início da década de 1910 ajudou a liberar o poder da industrialização para revolucionar as relações humanas, passou a maior parte do resto da sua vida tentando colocar o gênio de volta na garrafa, conter o rompimento que ele mesmo provocara, somente para ficar contínua e inevitavelmente frustrado”, afirma Greg Grandin.

Em janeiro de 2021, a Ford, símbolo da indústria americana, segue com dificuldades de se adaptar a um mundo em constante transformação. A história da Fordlândia continua atualíssima.

Por José Carlos Garcia
Fotos: Reprodução

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