Dizer que Donald Trump vai salvar o Brasil do narcotráfico é inocência ou má-fé
No Brasil, há ideias que ganham força não porque são sólidas, mas porque crescem ancoradas em frustrações e no cansaço perante a falta de soluções para problemas graves. É o caso da proposta levantada pelos Estados Unidos, de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas. A hipótese passou a circular como se uma decisão tomada em Washington pudesse produzir a resposta que o próprio Estado brasileiro nunca conseguiu construir para enfrentar o narcotráfico.
A repercussão nas redes mostra como essa expectativa encontrou terreno fértil. Um estudo da AP Exata Inteligência de Dados, que analisou cerca de 30 mil menções sobre o tema no X e no Instagram, publicadas nos últimos sete dias, revela que a proposta reúne 64,3% de menções favoráveis, 22,1% contrárias e 13,6% neutras e informativas.

A minoria que rejeita a proposta teme uma ingerência externa, sanções sobre o Brasil e possíveis ações de forças militares estrangeiras em território nacional, a despeito da soberania brasileira. Também há o receio de que o tema seja explorado por Donald Trump como pretexto para avançar com objetivos geopolíticos dos Estados Unidos na América Latina.
Já o apoio é puxado principalmente pelos que veem a medida como endurecimento real contra o crime e entendem que a medida ajudaria a bloquear ativos utilizados pelas facções. Há também um grupo mais focado em pretensões eleitorais, que utiliza a pauta para atacar o governo federal, com o argumento de que o País, sob o comando da esquerda, tem sido ineficaz, omisso no enfrentamento e até conivente com o PCC e o Comando Vermelho. É nesse ambiente que surge a aposta de que Donald Trump poderia se tornar um aliado do Brasil no combate ao narcotráfico. Algo que se sustenta mais retórica do que em evidências.
Trump nunca demonstrou na prática compromisso real com esse tema, e o episódio recente na Venezuela ilustra bem o padrão que ele tem adotado. A narrativa pública que justificou a operação americana em Caracas foi o combate ao narcotráfico e ao chamado “narcoterrorismo”. Mas, logo após a captura de Nicolás Maduro por forças dos EUA, em janeiro, o próprio Trump passou a enfatizar qual era o seu verdadeiro objetivo. O controle e a exploração das vastas reservas de petróleo venezuelanas se tornaram o centro da estratégia anunciada por Washington.
O resultado foi que o regime venezuelano permaneceu praticamente intacto. A vice-presidente de Maduro, Delcy Rodríguez, assumiu o poder para garantir a continuidade do governo, considerado antidemocrático, enquanto os Estados Unidos passaram a discutir a reorganização do setor energético do país e o acesso de empresas americanas às suas reservas.
Esse detalhe deveria acender um alerta em Brasília. O petróleo é uma obsessão declarada de Trump. O Brasil possui reservas gigantescas e pode se tornar um dos maiores produtores do mundo nas próximas décadas, com o potencial exploratório da margem equatorial na região amazônica. Imaginar que Washington se moveria por altruísmo no combate ao crime organizado é desconhecer como funciona a lógica de Trump.
Mas, por menos claras que sejam as intenções do governo norte-americano, isso não muda o fato de que esse debate só ganhou espaço porque o próprio Estado brasileiro fracassou em enfrentar o narcotráfico. Executivo, Legislativo e Judiciário convivem por décadas com a expansão das facções, sem construir uma política consistente de combate ao crime organizado e permitindo que elas estendessem seus tentáculos para os mais diversos setores, inclusive o setor público.
As cidades brasileiras já naturalizaram os territórios dominados pelo tráfico. O curioso é que as autoridades e as polícias sabem exatamente quais regiões são controladas pelo crime. Conhecem rotas, pontos de distribuição e estruturas de financiamento dessas organizações. Ainda assim, a política alterna períodos de omissão com operações espetaculosas, que geram manchetes, mas não produzem um resultado real.
O exemplo do Rio de Janeiro resume esse padrão. Em outubro de 2025 uma grande operação nos complexos do Alemão e na Penha foi apresentada como demonstração de força do Estado. Resultou em 122 mortes e teve enorme repercussão, mas não desmontou o comando das facções, não atingiu o núcleo financeiro do tráfico e não teve continuidade baseada em inteligência. Foi uma ação cheia de marketing e vazia de efetividade.
Nesse cenário, acreditar que Trump salvará o Brasil do narcotráfico não é realismo político. É inocência ou má fé. Quem vende essa narrativa tenta transformar uma frustração legítima da sociedade em capital político fácil ou esperança vã.
O Brasil não precisa de um salvador estrangeiro. Precisa de um Estado que finalmente enfrente o crime organizado com inteligência, continuidade e coragem política. É justamente isso o que tem faltado.




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